A partir da
demanda de analisar o espaço doméstico pessoal sob o ponto de vista das ideias
apresentadas no livro “Lições de Arquitetura” do Herman Hertzberger, discuto abaixo
meu espaço frente a óptica pedida. Essa análise seguirá um aumento de escala durante
seu desenvolvimento, partindo do quarto até alcançar a vizinhança.
O QUARTO
O quarto como espaço, predominante, privado é demarcado por convenções sociais
e pelo baixo grau de acesso que ele oferece, principalmente quando comparado a
outros cômodas da casa. Um dos recursos utilizados para demarcar esse espaço
com tal caráter é a presença de objetos pessoais, onde transpareço meus
gostos e minha personalidade. Um exemplo
disso é a presença de meus troféus ganhados em campeonatos de natação sobre a
cabeceira de minha cama. A partir de objetos como esse, quem entrar no meu
quarto pode notar que ali se trata de um espaço privado, onde uma pessoa ou
mais se expressam.
A porta do
quarto estabelece uma conexão com a copa; que é um espaço de grande
circulação de pessoas. Por isso, para que o quarto seja utilizado de forma
privada há a necessidade de fechamento dessa porta. Com isso, podemos notar que
o grau de privacidade é temporário e é colocado em questão por meio do uso.
O
meu quarto tem uma janela veneziana que pode ser fechada completamente,
vendando qualquer visão do lado de fora, permitindo uma maior privacidade, mas
também pode ser fechada apenas pela folha de vidro fosco, permitindo certo
intervalo entre o caráter público e privado. Esse intervalo permite, por
exemplo, que mesmo que minha janela permaneça fechada, a luz do sol entre e
ilumine o ambiente.
Essa janela oferece uma visão do quintal, onde eu consigo ver o céu, algumas árvores e meus cachorros. A estrutura das esquadrias emoldura a paisagem e permite uma contemplação do que acontece do lado de fora. Além disso, permite que eu consiga ver se meus animais de estimação estão bens e seguros.
Uma
das partes do meu guarda-roupa é usada para guardar roupas de cama de toda a
família, o que gera certo acesso público ao meu ambiente privado, uma vez que
os moradores, eventualmente precisam entrar no meu quarto para pegarem essas
roupas.
A CASA
O lote retangular onde se encontra a casa é murado em todos os seus lados, e
por isso a possibilidade de alguém de fora ver a parte interna do lote é muito
pequena. Mas apesar disso, devido a inclinação da rua, a casa vizinha do lado
direito tem como visão algumas janelas da minha residência. A partir disso, há
uma maior interação com esses vizinhos, uma vez que enquanto as janelas de
ambas as casas estão abertas, concede o contato mais direto com esses vizinhos.
Esse detalhe permite que minha família possa conversar com os moradores da casa
ao lado sem ao menos precisar acessar a rua.
A estrutura da casa permite que novas acomodações sejam planejadas. Uma vez que não houve a ocupação de todo o terreno. Permitindo, por exemplo, a construção de um banheiro ligado a determinado a quarto. Outro fator que contribui para as diversas interpretações do espaço, é a questão de nenhum móvel ser fixo, permitindo a exploração de diferentes possibilidades de como determinado cômodo pode ser usado, de acordo com as demandas do momento.
A
forte diferenciação entre o espaço público da rua e o privado das casas é uma
questão muito enraizada no Brasil. Dessa forma, em minha cidade não é diferente.
A parte da frente é toda fechada, com um muro e um portão que impossibilita a
visão da parte de dentro. Apesar dessa alta privacidade, há a presença de
elementos que remetam a espaços públicos, como o uso do jardim, que se
apresenta como uma lembrança a espaços como os parques e jardins, onde a
natureza é protagonista.
Na garagem há uma balaustrada que inicialmente teria a função apenas de separar o jardim da varanda, mas que acaba sendo usada, também, como banco para que, na maioria das vezes, possa se contemplar o céu e o jardim ou até mesmo ler.
A
calçada foi assentada com um piso muito diferente da cor e dos materiais que
lembram os usados em espaços públicos em minha cidade. Por isso ocorre certo grau de
particularização do espaço público, permitindo assim a presença do intervalo
entre esses espaços. Esse intervalo proporciona uma passagem gradual entre
esses espaços com caráteres diferentes.
A RUA E A VIZINHANÇA
Na minha rua há a presença de uma praça que se apresenta como um estímulo para
as relações sociais, onde diversos grupos de moradores se encontram para
conversar, principalmente o publico mais idoso. Nessa praça podemos perceber
certa particularização do espaço público a partir do posicionamento constante
de determinados grupos em determinadas partes da praça.
O
planejamento urbano em minha cidade se dá pelo tradicional formato de grade, onde
as casas são posicionadas de frente uma para as outras, permitindo um maior
convívio social naquele espaço. Ademais, como consequência lidamos com a morte
da dinâmica social no fundo das casas, uma vez que essa parte traseira vai de
encontro com a parte traseira de outra casa. Esse cenário poderia ser diferente
caso os lotes e construções fossem alinhados, que permitiria, por exemplo, o
planejamento de galerias.
Apesar
de uma legislação que mantém um controle rígido de como as pessoas podem
exercer sua influência no ambiente público, a população resiste. Mesmo com a
calçada estreita, muitos moradores optam por colocar plantas e árvores nas suas
calçadas, permitindo que haja certo reconhecimento de quem mora ali, dos seus
gostos e sua identidade. No final das contas, a vida sempre vence.
Pela
rua ser composta majoritariamente de casas, com raras exceções de sobrados e um
prédio de 3 andares, é perceptível a formação de uma unidade, que apesar da
diferença entre as construções, ainda é possível perceber essa identidade em
comum.
A partir dessa análise, se torna claro o quão rico são os temas abordados no livro de Hertzberger e como podem ser facilmente abordados em nosso cotidiano. E mesmo que os exemplos citados por ele não sejam tão reconhecidos na realidade brasileira, ainda podem ser bem compreendidos e, concomitantemente, suscitar uma discussão.
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